Primeiro brasileiro a cultivar alimentos na Antártica revela detalhes sobre expedição
A iniciativa, no contexto do Programa Antártico Brasileiro, incluiu mostarda, agrião, brócolis, alface, repolho e feijão
No coração da Antártica, onde a sensação térmica se aproxima dos −60 °C, pesquisadores brasileiros construíram uma estufa para cultivar mostarda, agrião, brócolis, alface, repolho e feijão, um feito inédito no contexto do Programa Antártico Brasileiro.
Em entrevista exclusiva à Globo Rural, Gabriel Estevam, diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Ambipar, que esteve à frente do projeto, conta que a estrutura começou a ser desenvolvida em 2023 embarcada de tecnologia brasileira, pensando em melhorar o dia a dia dos cientistas durante as expedições.
"Quando vamos para lá, as condições são ruins, em termos de higiene e alimentação. Tudo congela. Pasta de dente, meia, roupa, até a unha. É algo surreal. E, por isso, comemos muitos alimentos industrializados, atum, massa, sopa... A estufa vem para mudar essa realidade", explica.
Como a equipe permanece na Antártica por cerca de 25 dias, as espécies testadas precisavam ser de ciclo curto, por isso, os microverdes foram os escolhidos da vez. "O plantio e a colheita podem ser feitos em aproximadamente 10 a 12 dias, além de se adaptarem bem a ambientes controlados, exigirem menos substrato e responderem de forma previsível ao controle de luz, temperatura e umidade", explica o pesquisador.
O projeto da estufa, da Ambipar, teve um investimento total de cerca de R$ 600 mil. Apesar de todo o planejamento e expectativa, ainda havia muitas incertezas, uma vez que não era possível reproduzir as condições que a estufa enfrentaria no local.
“O máximo que conseguimos foi levá-la para uma câmara frigorífica a -1,5°C Isso não chega nem perto do que a gente vive lá”, relembra Gabriel.
Os desafios
Segundo Gabriel, os "perrengues" começaram antes da estufa chegar ao seu destino. O equipamento percorreu uma longa cadeia logística, sendo transportado por navio, aeronave e até trenó. Cada etapa aumentava o risco de danos à estrutura, o que exigiu planejamento cuidadoso e manuseio constante, já que qualquer avaria poderia inviabilizar todo o cultivo.
Uma vez instalada, a operação passou a depender de um controle preciso das condições ambientais. Durante o verão antártico, a luz solar permanece constante, o que exigiu a criação de um sistema artificial para simular o ciclo de dia e noite necessário ao desenvolvimento das plantas.
A estufa operou com cerca de nove a doze horas de luz por dia, temperatura interna próxima de 25 °C e umidade em torno de 60%, parâmetros ajustados especificamente para as espécies cultivadas. A própria estrutura foi projetada para esse contexto, utilizando isolamento térmico biodegradável à base de mamona, sem derivados de petróleo, combinado com alumínio reciclado.
O manuseio diário também impunha cuidados rigorosos. A abertura da estufa representava um risco imediato, já que a diferença entre a temperatura interna e externa podia provocar choque térmico suficiente para comprometer toda a cultura.
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O grupo ficou quase um mês realizando estudos in loco — Foto: Arquivo Pessoal/ Gabriel Estevam
"Tínhamos medo de esquecer a porta aberta e perder tudo. Em um dos dias, tivemos uma queda de energia que provocou oscilação da temperatura. Precisei pegar uma vela e acender lá dentro. Ela serviu para fornecer o CO₂ e mantê-la aquecida. Era um processo constante de tentativa e erro", recorda.
Outro aspecto central foi o manejo do substrato. Como não há solo disponível e nenhum resíduo pode ser descartado no continente, todo o material utilizado no cultivo foi produzido a partir de resíduos gerados pela própria equipe ao longo da missão.
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Para Gabriel, resultados colocam o Brasil na vanguarda das pesquisas — Foto: Arquivo Pessoal/ Gabriel Estevam
Borra de café, caixas de ovos, resíduos de chá e papel foram reaproveitados, e, em alguns momentos, cinzas de carvão e fósforo também foram incorporadas por sua contribuição mineral. A água disponível na Antártica, extremamente pura e sem sais minerais, exigiu ajustes adicionais no manejo para garantir a germinação e o crescimento das plantas.
Com os resultados obtidos, a estufa passa a ser tratada como prova de conceito, e a equipe já discute a ampliação do projeto, com estruturas de maior escala e operação contínua, capazes de sustentar novas pesquisas sobre produção de alimentos em ambientes extremos.
"O Brasil já é referência no agro. Quando você leva o agro para condições extremas, é outro nível. Isso nos coloca na vanguarda, não só em sementes que performam bem, mas em procedimentos e protocolos que podem ser replicados em outras estações de pesquisa”, celebra.
A missão da Antártica foi feito sob coordenação do professor doutor Heitor Evangelista, da UERJ, com financiamento do CNPq e suporte técnico de instituições como INPE, Inmet, UFRGS, USP, UFPR e CBPF, além do apoio logístico do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
Fonte. https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2026/01/primeiro-brasileiro-a-cultivar-alimentos-na-antartica-revela-detalhes-sobre-expedicao-inedita.ghtml
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